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quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Valsinha
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz
Chico Buarque
sábado, 15 de setembro de 2012
Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Santiago do Chile, abril de 1964
Thiago de Mello
domingo, 9 de setembro de 2012
Procura (Cora Coralina)
Andei pelos caminhos da Vida
Caminhei pelas ruas do Destino -
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei na casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a porta da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez me beber de seu vinho.
Acertei meu caminho.
sábado, 11 de agosto de 2012
Literatura indígena
"Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito,
Se não der pau vai comer! "
Se não der pau vai comer! "
Em pleno século XXI, por incrível que pareça, essa é a visão simplista de muita gente em relação aos povos indígenas. Cercados de tabus e estereótipos, escritores indígenas tem mantido uma luta constante para divulgar os valores desses povos há tanto tempo negligenciados.
Deixo abaixo um exemplo de escrita dilacerante, que dispensa qualquer explicação.
"As mulheres indígenas do planeta terão suas terras roubadas,
suas culturas e espiritualidades dilaceradas, suas vidas ceifadas e gerações e
gerações de filhos discriminados na sociedade urbana e rural e desprezados
pelos políticos e empresários. Terão suas culturas penduradas em Museus ou
demonstradas em desfiles de Carnaval, como seres do passado, ou do folclore.
Servirão de chacotas em cidadelas e pedirão esmolas. Os homens se embriagarão e
ficarão fracos ou loucos. Seus filhos serão frágeis e uma onda de extermínio
acobertará tribos inteiras, até que mulheres e homens fortes, como muitos
líderes que virão ouçam a voz da ancestralidade, vejam as marcas de jenipapo
cravadas nas caras étnicas como uma marca imposta por Mim - NHENDIRU, o Criador
- e que sintam a chama eterna da IDENTIDADE INDÍGENA para ser respeitada e
aceita, como um exemplo para o planeta terra. Exemplo de uma etnia humana que
sangrou, retomou a voz ancestral e ética e sobreviveu a todo o processo de
escravidão do passado e do presente e que realmente possa ensinar a filosofia
da igualdade e fraternidade. Porque os povos indígenas são meus filhos
primogênitos dos cinco continentes, foram os primeiros que Eu coloquei neste
planeta, por conhecerem o princípio ético do equilíbrio na natureza. Povos
indígenas devem ser exemplo do BOM CONVÍVIO COM A SOCIEDADE E A NATUREZA.
Exemplo de prosperidade ética e espiritual."
Trecho do texto: Quer ser mulher? Perguntou Deus! - Por Eliane
Potiguara
Leia o texto completo em: http://grumin.blogspot.com.br/2006/03/quer-ser-mulher-perguntou-deus.html
ELIANE POTIGUARA
Cidade dos Cristais, RJ, Brasil
Escritora que corre mundo e escreve os caminhos e
descaminhos da vida. Eliane Potiguara (Brasil)Foi indicada em 2005 ao Projeto
Internacional "Mil mulheres ao Prêmio Nobel da Paz", é escritora,
poeta, professora, formada em Letras (Português-Literatura) e Educação, ascendência
indígena Potiguara, brasileira, fundadora do GRUMIN / Grupo Mulher-Educação
Indígena. Membro do Inbrapi, Nearin, Comitê Intertribal, Ashoka (empreendedores
sociais), Associação pela Paz, Cônsul de Poetas Del Mundo. Trabalhou pela
Declaração Universal dos Direitos Indígenas na ONU em Genebra. Seu último livro
é “METADE CARA, METADE MÁSCARA”, pela Global Editora. Ganhou o Prêmio do PEN
CLUB da Inglaterra e do Fundo Livre de Expressão, USA. Site pessoal:
http://www.elianepotiguara.org.br/
OBS.: Descrição extraída do site da autora.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
O meu preço (José Craveirinha)
Eu cidadão anónimo
do País que mais amo sem dizer o nome
se é para me dar de corpo e alma
dou-me todo como daquela vez em Chaimite.
Dou-me em troca de mil crianças felizes
nenhum velho a pedir esmola
uma escola em cada bairro
salário justo nas oficinas
filas de camiões carregados de hortaliças
um exército de operários todos com serviço
um tesouro de belas raparigas maravilhando as praias
e ao vento da minha terra uma grande bandeira sem quinas.
Se é para me dar
dou-me de graça por conta disso.
Mas se é para me vender
vendo-me mas vendo-me muito caro.
Ao preço incondicional
de quanto me pode custar este poema.
(Cela 1. Maputo: Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980, p. 43)
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Paulina Chiziane
Em todas as guerras do mundo nunca houve arma mais fulminante que a
mulher, mas é aos homens que cabem as honras de generais.
(Paulina Chiziane. Ventos do Apocalipse)
Ela aprendeu a escrever debaixo de uma árvore,
rabiscando as primeiras palavras na areia.
Hoje, seus textos são traduzidos para os mais diversos idiomas.
A primeira moçambicana a publicar um livro.
Sensibilidade, inteligência, militância.
Uma contadora de histórias, uma observadora do mundo!
sábado, 12 de novembro de 2011
INJUSTIÇA (Fabrício Carpinejar)
Não existe justiça no amor.
O amor não é censo, não é matemática, não é senso de medida, não é socialismo.
É o mais completo desequilíbrio. Ama-se logo quem a gente odiava, quem a gente provocava, quem a gente debochava. Exatamente o nosso avesso, o nosso contrário, a nossa negação.
O amor não é democrático, não é optar e gostar, não é promoção, não é prêmio de bom comportamento.
O melhor para você é o pior. Aquele que você escolhe infelizmente não tem química, não dura nem uma hora. O pior para você é o melhor. Aquele de quem você procura distância é que se aproxima e não larga sua boca.
Amor é engolir de volta os conselhos dados às amigas.
É viver em crise: ou por não merecer a companhia ou por não se merecer.
Amor é ironia. Largará tudo — profissão, cidade, família — e não será suficiente. Aceitará tudo — filhos problemáticos, horários quebrados, ex histérica — e não será suficiente.
Não se apaixonará pela pessoa ideal, mas por aquela que não conseguirá se separar. A convivência é apenas o fracasso da despedida. O beijo é apenas a incompetência do aceno.
Amar talvez seja surdez, um dos dois não foi embora, só isso; ele não ouviu o fora e ficou parado, besta, ouvindo seus olhos.
Amor é contravenção. Buscará um terrorista somente para você. Pedirá exclusividade, vida secreta, pacto de sangue, esconderijo no quarto. Apagará o mundo dele, terá inveja de suas velhas amizades, de suas novas amizades, cerceará o sujeito com perguntas, ameaçará o sujeito com gentilezas, reclamará por mais espaço quando ele já loteou o invisível.
Ninguém que ama percebe que exige demais; afirmará que ainda é pouco, afirmará que a cobrança é necessária. Deseja-se desculpa a qualquer momento, perdão a qualquer ruído.
Amar não tem igualdade, é populismo, é assistencialismo, é querer ser beneficiado acima de todos, é ser corrompido pela predileção, corroído pelo favoritismo. É não fazer outra coisa senão esperar algum mimo, algum abraço, algum sentido.
Amor não tem saída: reclama-se da rotina ou quando ele está diferente. É censura (Por que você falou aquilo?), é ditadura (Você não devia ter feito aquilo!). É discutir a noite inteira para corrigir uma palavra áspera, discutir metade da manhã até estacionar o silêncio.
Amor é uma injustiça, minha filha. Uma monstruosidade.
Você mentirá várias vezes que nunca amará ele de novo e sempre amará, absolutamente porque não tem nenhum controle sobre o amor.
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