sábado, 17 de junho de 2017

Uma carta...


Algumas vezes, ofereci tudo o que tinha: meu tempo, minha confiança, meu amor. O grande problema, porém, é que nem sempre ofereci de forma arrumada, em um embrulho bonito, com uma aparência atraente. Então, o que tinha de mais precioso, acabou passando despercebido. Acabou não sendo suficiente. Por mais que tenha me esforçado, o que tenho a oferecer nunca será suficiente, pois você não habitou em mim. Não enxergou as lutas e superações. Não enxergou que tentei arrumar a bagunça que existe aqui dentro, para receber você. Simplesmente não enxergou. Não é sua culpa. Não poderia exigir que entendesse o que eu mesma, muitas vezes, custo a compreender. A única afirmação que posso fazer é que ofereci verdade. Sempre. Em meio a minha bagunça, em meio ao caos que há aqui dentro, havia planos. Planos verdadeiros, de um futuro para nós dois. A parte mais triste e revoltante desta história, portanto, foi a brutalidade com que você triturou esses sonhos. Assim como nos versos de Cartola:

"Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó"

Reduziu, triturou, enganou. Você era o moinho.

Agora, juntando os pedaços que foram deixados, pensarei duas, três, mil vezes, antes de confiar em alguém.  E aprenderei a selecionar quem merece conhecer a minha bagunça, quem é digno de habitar o meu caos. Afinal, era pouco, mas era tudo o que eu tinha a oferecer.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Coleção



Possuía uma estranha mania. Não revidava. Não devolvia. Simplesmente pegava as ofensas e as guardava. Uma a uma.
Tudo começou na infância. Ainda menino, em uma brincadeira com os colegas. Não era o mais ágil, na realidade atrasava toda a turma:
- Não quero ficar no time do Pedro! Ele é um mané!
Na primeira vez que ouviu comentários como esse, poderia ter devolvido, “dado o troco”, como dizem popularmente. Mas, não...
Tomou para si... Pacientemente dobrou cada palavra, acomodou-as e deu início a uma curiosa coleção.
Ao longo dos anos, as palavras espinhosas, o sarcasmo, a rejeição, foram cuidadosamente acomodados, inicialmente, em uma pequena caixa, a qual na adolescência deu lugar a uma mochila. Sua única e inseparável amiga. Todos ficavam curiosos, afinal, o que será que aquele rapaz caladão, com um olhar tão evasivo carregava naquela bolsa? Seu aspecto pesado evidenciava a sina daquele rapaz: carregar em suas costas o peso do mundo.
Todos, de alguma forma, contribuíam para o crescimento de sua coleção. A indiferença dos pais, por exemplo, rendia dúzias de itens: desde palavras frias e cortantes a comentários críticos e cruéis. Dia após dia... um peso quase insuportável.

Até que um dia...

- Oi. Qual é o seu nome?

... uma leveza inexplicável. Por alguns segundos, todo o peso esvaiu. Bastou um sorriso, o mais belo que já tinha visto, o mais sincero... Não sabia qual era o seu nome, mas sabia que era linda. Queria estar ao seu lado. Em sua presença o mundo era leve. Pela primeira vez uma amizade, pela primeira vez o amor.

Poderia dizer que a mochila ficou esquecida. Jamais voltou a carregar o peso do mundo... Mas não é bem assim que funciona. O encanto durou algum tempo, porém, a convivência revela segredos, desnuda a alma, muitas vezes sem ao menos precisar de palavras.

Surgiram as primeiras divergências, os inevitáveis conflitos. Agiu como de costume, guardou as ofensas uma a uma... Mas... Agora era diferente, já não havia espaço. E as palavras, frias e cortantes, pesavam cada vez mais. Até que... o inevitável: não guardou as injúrias. Pegou sua enorme mochila e foi atirando, cada sarcasmo, cada palavra espinhosa, uma após a outra, sobre aquele sorriso que outrora lhe trouxera tamanha leveza.
Ela, atônita, agora com a fragilidade de uma flor, já não conseguia revidar. Aceitou calada toda aquela coleção de infortúnios. Olhou atentamente e, sentiu uma dor dilacerante ao perceber que ele havia carregado todo aquele peso, sozinho, por tanto tempo.

Por fim, o silêncio.

Em um canto do quarto, a mochila vazia. Lágrimas nos olhos de ambos. Agora, o mundo possuía a leveza de um abraço.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Seiscentos e Sessenta e Seis


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
( Mario Quintana )
Poema publicado originalmente no livro Esconderijos do Tempo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A mão do amor

*Arte de Francisco Vilela da Silva 



Eu queria que a mão do amor
Um dia trançasse
Os fios do nosso destino
Bordadeira fazendo tricô

Em cada ponto que desse
Amarrasse a dor
Em cada ponto que desse
Amarrasse a dor

Como quem faz um crochê
Uma renda, um filó
Unisse as pontas do nosso querer
E desse um nó

Maria Bethânia

Ter ou não ter namorado? Eis a questão




Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200 Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.



Enlou-cresça!

(Artur da Távola. In: Amor a sim mesmo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.)

Observação: em alguns sites, a autoria desse texto é erroneamente atribuída a Carlos Drummond de Andrade.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Teresinha



O primeiro me chegou
Como quem vem do florista:
Trouxe um bicho de pelúcia,
Trouxe um broche de ametista.
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha.
Me mostrou o seu relógio;
Me chamava de rainha.

Me encontrou tão desarmada,
Que tocou meu coração,
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse "não".

O segundo me chegou
Como quem chega do bar:
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar.
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida.
Vasculhou minha gaveta;
Me chamava de perdida.

Me encontrou tão desarmada,
Que arranhou meu coração,
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse "não".

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada:
Ele não me trouxe nada,
Também nada perguntou.
Mal sei como ele se chama,
Mas entendo o que ele quer!
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher.

Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não,
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração.

Chico Buarque

Valsinha




Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar

E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz

Chico Buarque